A importância de se escovar os dentes

Estudos mostram que bactérias da boca também podem provocar ou piorar problemas nos pulmões, cérebro e coração. Logo, vai deixar de escovar os dentes?


Melhor pensar duas vezes antes de postergar a escovação depois do almoço ad infinitum. E o motivo não é só o mau hálito ou a conservação de um sorriso bonito. Uma boca bem cuidada tem mais a ver com a saúde do resto do corpo do que você supõe. A cada ano surgem novas evidências ligando problemas dentais a diabete, infecções pulmonares, males cardíacos e até parto prematuro. Isso ocorre porque a cavidade bucal é um tremendo ninho de bactérias: são pelo menos 700 espécies que convivem entre a dentição, a gengiva e a língua. Enquanto você usa frequentemente a escova e o fio dental — e visita o dentista para uma limpeza mais pesada pelo menos uma vez por ano —, os micro-organismos moram lá numa boa sem causar transtornos. Agora, basta um cuidado mais relaxado ou uma predisposição mais forte (algo que não tem como prever) para que as bactérias se multipliquem — daí a placa bacteriana — e cárie e gengivite comecem a fazer parte de sua vida.

A inflamação da gengiva representa o principal perigo, inclusive porque é silenciosa. Vermelhidão e sangramento aparecem, mas raramente há dor. “O problema é que ela pode evoluir para um estágio que chamamos de periodontite, quando as bactérias atingem o tecido ao qual se prendem os dentes. Isso cria, com um tempo, uma bolsa entre a gengiva e o dente com uma carga bacteriana enorme”, explica o periodontista Cláudio Pannuti, da Universidade de São Paulo. E é a partir daí que não só a boca, cujos dentes podem cair se o mal não for remediado, mas todo o corpo fica bastante ameaçado: as bactérias podem se valer de fissuras na gengiva para penetrar na corrente sanguínea e ganhar acesso ao organismo.

A relação entre encrencas na gengiva e no periodonto (esse tecido que dá suporte à dentição) e problemas a distância não é exatamente uma novidade para médicos e dentistas. De acordo com o periodontista Juliano Milanezi de Almeida, da Universidade Estadual Paulista, em Araçatuba, o pai da medicina Hipócrates já a mencionava no século 5 a.C. Mas o elo só entrou para a ciência moderna quando o cirurgião dentista americano Willoughby Dayton Miller publicou um artigo no final do século 19 intitulado A Boca Humana como Foco de Infecção. “O texto já propunha a ligação entre os micro-organismos orais e o desenvolvimento de abscessos cerebrais e complicações gástricas e pulmonares”, conta Almeida. Os seguidores de Miller passaram a defender a extração de dentes doentes como um meio de livrar o organismo de maiores danos sistêmicos. O movimento avançou até a década de 1950, quando acabou sendo revisto — nem sempre seria realmente necessário fazer essa retirada preventiva.

No entanto, na última década, especialistas voltaram a examinar o elo, encontrando muitos dados que legitimam um maior cuidado com os dentes e a gengiva a fim de evitar problemas remotos. No coração, por exemplo. Uma extensa revisão de estudos capitaneada pela Universidade de Ciências e Saúde do Oregon, nos Estados Unidos, atesta o papel dos transtornos bucais, especialmente a gengivite e a periodontite, em danos ao sistema circulatório. O artigo conclui que quem tem periodontite apresenta um risco 34% maior de sofrer de uma doença cardiovascular, como um infarto, comparando com pessoas de gengiva saudável. Outras pesquisas acusam uma relação íntima entre a perda de dentes — consequência de anos de periodontite — e derrames. “Há dados apontando que adultos com um número igual ou menor do que 24 dentes possuem um risco 57% maior de ter um acidente vascular cerebral”, relata Ricardo Neves, diretor da Unidade de Odontologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo, o InCor. Geralmente, um adulto saudável dispõe de uma arcada dentária com 32 unidades.

Outra ameaça ao peito incitada pelas bactérias da boca é a chamada endocardite, uma grave e potencialmente fatal inflamação no tecido que reveste as válvulas cardíacas. Se um indivíduo já tem uma lesão aí, os micro-organismos que escapam da gengiva podem fazer a festa. “Uma das condições básicas para que haja essa doença é a presença de bactérias na circulação e a boca é uma das principais portas de entrada para elas”, diz o cardiologista Max Grinberg, do InCor. O que assusta é que tudo leva a crer que as condições da boca do brasileiro, inclusive aquele que mais precisaria de uma higiene adequada, deixam a desejar. “Fizemos um levantamento no InCor com 1.000 pacientes que estavam na fila para cirurgia de válvula cardíaca e observamos que 18,5% deles apresentavam uma saúde bucal satisfatória. Os outros 80,5% tinham focos infecciosos ali e tiveram de ser tratados antes da operação”, conta Neves.

ATAQUE INDIRETO

Daquela legião de espécies bacterianas que habitam a cavidade bucal humana, não são muitas as que aterrorizam o corpo ao chegar à corrente sanguínea — entre as mais estudadas, destacam-se a Streptococcus viridans, a Porphyromonas gingivallis e a Bacteroides forsythus. Além de se envolverem diretamente em infecções e placas nos vasos, tais bichinhos complicam a vida de outras regiões por desatarem um intenso processo inflamatório. Embora essa seja uma reação natural de defesa, a liberação constante de substâncias inflamatórias pode incendiar áreas já acometidas por uma doença, caso dos pulmões e das articulações. “A alta presença de substâncias inflamatórias ainda facilita a formação das placas nas artérias, favorecendo o infarto”, diz o periodontista Giuseppe Alexandre Romito, da Universidade de São Paulo.

Essas partículas incendiárias, por assim dizer, também atormentam pessoas com diabete, condição marcada pela incapacidade de o açúcar ser levado para dentro das células do organismo. Há indícios de que a inflamação crônica da doença periodontal contribua para que a glicose fique sobrando no sangue, motivo de diversas complicações, algumas delas fatais. Em se tratando de diabete, aliás, pesquisas mostram que a encrenca é de mão dupla: o excesso de açúcar, por sua vez, fomenta a ação das bactérias na gengiva. Já deu pra perceber que isso cria um círculo vicioso, capaz de resultar na queda dos dentes e em picos de glicose no sangue.

Mesmo quem não tem diabete precisa cuidar bem da boca se quiser ter um cérebro saudável com o avançar da idade. A inflamação detonada na zona bucal parece acentuar casos de déficit cognitivo na maturidade. Um trabalho da Universidade West Virginia, nos Estados Unidos, com dados de uma comunidade de pessoas acima de 60 anos, revela que quadros de deterioração dos dentes e da gengiva estão diretamente relacionados com piores índices de memória e raciocínio lógico nessa faixa etária.

Da mesma forma, o mau estado bucal também se torna um vilão para as grávidas. Tanto o processo inflamatório como as bactérias já são acusados por pesquisas de patrocinar o parto prematuro, quando o bebê nasce com menos de 37 semanas. “Os micro-organismos podem chegar à placenta e estimular que ela rompa antes do tempo, acelerando o nascimento da criança”, explica Romito. Gestantes, portanto, precisam levar à risca o conselho de dar atenção à sua boca — recado que, depois das evidências apresentadas por aqui, se estende para todo mundo, das crianças aos mais velhinhos. Lançar mão do fio dental e caprichar na escovação pelo menos três vezes ao dia são formas de não apenas deixar os dentes impecáveis, mas prevenir problemas e complicações que, só na aparência (e só na aparência mesmo), não parecem ter nada a ver com a sua cavidade bucal.


Editora Globo

Via Revista Galileu


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